É pior ter e perder que nunca ter

Diário do Efêmero

Li agora mesmo uma coluna da Folha, Brasil sem pai nem mãe, de autoria do Fernando Canzian que me fez pensar em quanto o Brasil podia ter evoluído, mas não fez. Vivemos uma crise econômica e, sobretudo, política que assusta a empresários e trabalhadores. Cada um temendo pela continuidade de seus negócios e seus empregos.

A percepção que tenho é que poucas vezes vi as pessoas tão pessimistas e temerárias diante de uma crise como agora. Não sei se é reflexo do grande crescimento econômico que vivemos entre 2007 e 2008 (antes da crise) e o contraste é que nos pesa agora, ou se realmente os mais experientes sentem que essa é a crise brasileira que mais acirrada.

Fernando Cazian comenta muito bem que o Brasil devia ter se estruturado e passado por reformas importantes no passado, quando Lula e Dilma apresentavam bom índice de popularidade e boas oportunidades…

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Palco X Bastidor

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Lembro-me de momentos que passei com os amigos. Tempos bons, outros nem tanto, mas sempre tinha algum amigo ali, pra rir, beber, chorar. Há um dito popular, já até clichê pelo que foi excessivamente utilizado, mas ele diz que amigos são a família que escolhemos.

Não creio. Justamente pela principal característica da família, que haja o que houver, está ali. Tormento das noras que não se dão com suas sogras e dos maridos cujos concunhados torcem por outro time. Não há como se esconder, uma hora dessas você vai ter que sentar a mesa com eles e dividir um frango com macarronada.

Já os amigos, esses vem e vão. A maior parte ficam só na lembrança mesmo. Os meus, por exemplo, viraram fotos minúsculas de Facebook. Ficam ali se manifestando de forma vazia, estranha. Às vezes, vejo que algum se casou, outro teve filho, penso “quem diria” e logo me esqueço de novo.

Outros, por falarem tudo que pensam no palco anônimo que é a internet, acabaram se tornando mais íntimos meus que outrora e continuamente menos amigos. É que as pessoas ficam corajosas quando não olham nos olhos do outro para falar. E falam mal de conceitos, políticas, religiões que não conhecem. Largam a ética de lado e riscam do mapa o respeito, porque nas redes sociais não se costuma retalhar conhecidos, só outros ânimos em suas pretensiosas páginas.

Ali descobrimos todos os tipos de lapsos como a falta de conhecimento da língua portuguesa, amigos que se dizem fotógrafos por profissão e que não acertam a iluminação em uma foto sequer do final de semana. Sem contar os conhecidos políticos que não deixam de ostentar a vida boa que levam tão somente com o “salário de vereador”.

Tem alguns que se esqueceram daqueles momentos. Embebidos no presente, se recusam a responder um comentário carinhoso no inbox, um pedido de atualização dos contatos, um convite ao reencontro. Compreendo-os, tem hora que a vida segue um rumo tão diferente que as coisas velhas ficam mesmo para trás.

Acho que os que mais me mortificaram foram aqueles que me procuraram por interesse. Queriam uma mãozinha em alguma coisa que eu sei fazer, um lugar para ficar. Quando não pude atender (ou não quis trabalhar e graça) nunca mais ouvi falar dos tais e tudo voltou a ser como era antes, só dois amigos de rede mesmo, que de amigos só tem o título do Facebook, mais nada.

 É claro que tem gente que é mais que um número, que continua sendo amigo por entre os anos, resistindo à rotina. Esses são sim irmãos, mas não que eu os tenha escolhido, parece que foi a vida que me deu com recomendações de que eu os mantivesse perto e bem cuidados.

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A pergunta que me atingiu foi: e se dinheiro não importasse? O que você faria?

Pensei em dois tipos de resposta. E se dinheiro não importasse e eu resolvesse fazer o que quisesse e viver com o mínimo possível? Bem, aí, eu me profissionalizaria em procurar a beleza escondida nas coisas. Só isso. Eu acharia lindo o vapor do asfalto quando as chuvas de verão caem no fim de tarde. Encantar-me-ia com o irmão mais novo ajudando o mais velho, cheio de admiração. Faria disso fotografia. Depois, escolheria minhas notas musicais favoritas e as combinaria em vários ritmos de vários instrumentos.

Viveria minha própria poesia, com amores sôfregos e infinitos, alguns platônicos. Sentira saudades demais de quem só vi uma vez, num dia de praça. Criaria passos novos de ballet e jazz, só para ensinar criancinhas de cinco anos a acompanharem o compasso, aprender o tempo e a métrica de músicas com o corpo. Faria muitos bolos! De todos os tamanhos, cores e sabores e, como não gosto de bolo, daria todos de presente para quem os fosse adorar.

A minha segunda resposta foi um devaneio bom. Se dinheiro não importasse porque eu tenho o suficiente para não me preocupar? Aí a vida seria simplesmente boa. Não porque dinheiro traz felicidade, mas porque o dinheiro honesto traz certas liberdades. Assim, eu ajudaria… Ajudaria gente que faz o bem com o pouco que tem, crianças que, de tão gratas, te dão um sorriso. Ajudaria pessoas que, ao receberem minha ajuda, talvez pensariam: ela é vinda de Deus.

Cuidaria de gastar ficando mais corajosa, rompendo com meus medos (ou matando alguns). Para isso, precisaria mergulhar bem fundo em lagos escuros e matar muitas baratas, mas muitas! Dedetizaria de graça todo meu bairro. Eu comeria comidinhas que fazem festa na boca, nunca mais passaria um só dia sem um banho de sol. Compraria poesias, quadros e cds de artistas que ninguém nunca ouviu falar. Ficaria na cama até as 9h quase todo dia! Teria mais cachorros. Alguns bulldogs, outros vira-latas de rua que, como eu, seriam sortudinhos de serem acolhidos numa boa casa de quintal grande.

Mas, depois de folgar minha consciência com a desimportância do dinheiro, só me resta voltar e trabalhar porque, por enquanto, ele ainda importa um tiquinho.

Um daqueles dias

Hoje a segunda amanheceu triste. Um pouco mais cinza, mais silenciosa que o de costume. Por que aprendemos a odiar as segundas? Por causa do trabalho? É duro pensar assim. Entender que cada um tem vivido suas infelicidades e desalentos nos seus postos de trabalho. Por isso somos mal atendidos em tudo quanto é lugar, por isso as pessoas vivem ranzinzas, quase se matando no trânsito.

As vezes, parece-me que falta organização. Se eu trabalho numa contabilidade, mas meu sonho era ser professora de educação física,  possivelmente tem alguém que é gerente de joalheria cujo sonho era ser contador. Poderíamos fazer uma inscrição federal de banco de talentos e colocar cada um nos seus devidos lugares, dando cursos que ensinem que, alguns ganharão mais, outros menos, mas a sociedade será melhor pois o nível de felicidade e satisfação há de crescer.

Eu sei… É o tipo de utopia que nunca daria certo. Muitos associaram desde o berço que felicidade é sinônimo de muita grana. Que ser feliz é entrar num carro com ar condicionado digital e teto solar. E ainda que se tenha muito, ainda será pouco, a não ser que você seja capa da Forbes e que sua simples presença no recinto já faça com que seus amigos de infância se sintam humilhados e fracassados.

Há um amargor inundando as entranhas da sociedade capitalista. Temos mais conhecimento, um mundo de tecnologia se descortina, a informação chega num clique (num Google), mas estamos mais burros. Não sabemos nem administrar nossas próprias vidas. Matamos e morremos violentamente, tornamo-nos viciados  nas coisas mais estranhas (drogas, sexo, video games). Fugimos.

Nessas horas, vejo o esforço de tantos artistas de produzir algo novo, um protesto. Algo bonito, um alívio. Mas hão de conseguir? Se para isso não há dinheiro e toda beleza do mundo tem sido vorazmente destruída pela nossa necessidade desenfreada de consumo? Pela nossa vontade de acumular tanto que levarão três gerações para que os filhos e netos playboys acabem com tudo?

Cansei. E o pior, nem consigo descer dessa roda gigante.

Diálogos Difusos

Ele disse:
_ Gostei de você por causa dos meus preconceitos.
_ Hã?!
_ Você é bonita, cheirosa, tem baixa estatura, parece ser inteligente, mas ainda não sabe quem eu sou. Tudo que preciso para escapar um pouco da minha rotina. Minha vida não vai bem. Ando estressado, trabalhando muito. Minha esposa não me entende, não me dá o suporte que preciso para continuar e eu só penso no bem dos nossos filhos. Ela é tão…
_ Ah! Então você me achou com cara de amante. Não, obrigada.

Boas maneiras, precisamos de vocês

Tem horas que fico com a sensação de que a liberdade de expressão baniu as boas maneiras. Iniciamos um processo de falar tudo que pensamos, de qualquer maneira, sem ter o mínimo de cuidado com quem este próximo. Ninguém mais para para pensar se as próximas palavras serão de alguma forma ofensivas (a não ser que se trate de manifestações preconceituosas quanto a negros ou homossexuais. E esse cuidado só existe porque está socialmente pactuado que pode-se ir preso por isso).

Então, funciona assim, se o cara é ateu e resolve berrar aos quatro ventos que os religiosos são todos burros, os religiosos têm duas opções: ignorarem ou iniciar um debate longuíssimo e, possivelmente, inglório para ambas as partes. Às vezes são elas, algumas mulheres, feminista que são, vivem publicando em suas redes sociais frases extremistas que são, na realidade, tão tiranas quanto os ditados machistas em voga em outro momento da história da sociedade e que elas combateram com tanto afinco.

Tá bom! Ninguém vai preso por isso, nem será penalizado, afinal temos direito de nos expressarmos, de falar sobre nossas opiniões e julgamento de mundo. É ótimo que possamos. Quem quer ser cerceado? Quem quer um “cala boca” da censura a ofender a democracia? Não queremos. Mas, um pouco de bom senso faz bem também.

Parece normal, atualmente, invadir o espaço alheio, rir dos outros. Ontem, vi a barbárie social se configurando diante de mim. Estávamos numa pequena festa quando uma moça estranha se senta ao meu lado. Já a tinha visto por aí, mas certamente nunca havíamos conversado. Ela apontou para um casal maduro que dançava alegremente ao som de um ritmo que eu imagino ser forró e… riu. Disse que nunca havia visto performance tão estranhamente hilária. Eu não pude evitar minha reação de horror. Levantei-me silenciosamente e fui para outra parte do salão.

Ali, havia um grupo um pouco mais conhecido. Não poderia chamá-los de amigos, mas é certo que já havia conversado com eles algumas vezes, conhecia um pouco dos perfis e acreditava que nenhuma reação ofensiva poderia vir dali. Ajeitei-me ante ao novo grupo. Ensejei um assunto pertinente ao momento quando quase morro do coração. A moça que estava ao meu lado eleva o tom de voz para fazer seu comentário non sense, interrompendo a todos e, claro, suprimindo a oportunidade de pessoas educadas, com o timbre de voz normal, de se expressar. Depois, ela dividiu o grupo, arrastando algumas pessoas pelo braço (arrastando… juro).Diante dessa balbúrdia, fui embora, afinal, para que serve um encontro senão para conversar?

Sinto falta da boa educação aristocrática, das conversas em tom agradável, das opiniões filtradas, do respeito. Ah! O respeito… Essa coisa era tão boa, por que os pais pararam de ensinar a seus filhos? Confesso que até eu, fã declarada da sensibilidade pelos sentimentos alheios, fico com vontade de responder o que penso, às vezes. Principalmente quando alguém me faz perguntas assim: “Por que você saiu mais cedo da festa”? A vontade é “Perdi o interesse. Vocês são muito egoístas para o meu mau humor”. No entanto, o bom senso me obriga a responder: “Ah! Tive outro compromisso, mas foi uma pena ter que ir mais cedo”.

Não é falsidade, é educação. Por favor, gente, use-a!

W.I.P.

Ser me pesa, cansa-me por sua duração infinita. “Ser” me parece algo encimesmado, metido. Dá-me a sensação de que, em breve, alguém vai apontar o dedo para mim e perguntar: “quem garante que você é”? Por isso, passei a acreditar na imutabilidade escrita e testemunhada. Fora disto, só estou.

 

Se na minha certidão diz que sou brasileira, eu sou. O problema é que diz que sou parda, será que sou? Na praia sou mulata, em casa sou preta, no salão sou loura e se estiver num momento retrô, meio punk, posso virar até arco-íris. Preconceitos do ser. Fazer uma afirmação concisa de coisas que, mesmo quando parecem que são, jamais serão (porque se eu pinto meu cabelo, na verdade não sou aquilo, só brinco de ser).

 

Tem estados que, uma vez que o integramos a nossa vida, sempre o seremos. Mãe (ou pai), por exemplo. Ainda que o filho parta antes dos seus geradores, estes sempre pais. Ex-marido também é estado eterno (ainda bem que a pensão, não). São status gravados como cicatriz. Piegas, admitir, mas é verdade. Ficam lá, não importa o tempo.

 

Esse “ser para sempre” é um dos mitos da vida.